Rolling Stone 1999

Especial Rolling Stone #810 (Abril 1999): Leia a matéria completa traduzida e relembre as fotos icônicas!

Britney Spears estende sua coxa cor de mel no sofá enquanto mantém o outro pé no chão. O cabelo com mechas louras está preso, revelando dois brincos de diamante em cada orelha; a maquiagem no rosto é cuidadosa, com delineador nos lábios. A estampa da camiseta cor-de-rosa em que se lê “BABY PHAT”(clique para ver um exemplo) [algo como “gostosa”] estica-se pelo peito volumoso, e o shortinho branco sedoso – com detalhes em azul escuro – aperta-se contra o quadril. Ela ergue a cabeça e abre um sorriso.

Mas espere. Não é bem assim. Você está caindo na mesma cilada que pegou jovens apaixonados que ligam para a floricultura do bairro de Britney e lhe enviam dúzias de rosas e também os garotos com hormônios à flor da pele que batem ponto na frente dos estúdios da MTV com convites de baile de formatura pregados no peito. Ninguém esconde: a armadilha foi feita com muito cuidado, com um vídeo de estréia que mostra a cantora de 17 anos saltitando de um lado para o outro como a colegial mais sacana do mundo. Mas, como Britney observa, nada aparece de verdade. “Eu só amarrei a camisa!”, avisa, dirigindo-se aos críticos que começaram a persegui-la como se fosse um Teletubby gay. “Estou usando um top por baixo. Claro que estou de meia até a coxa, mas as garotas usam isso. Você assiste à MTV? Com todas aquelas meninas de fio dental?”

No momento, a coxa esquerda de Spears está enfeitada com pequenos discos de plástico ligados a um estimulador neuromuscular. Um acidente durante o ensaio de uma coreografia confinou Spears temporariamente à casa dos pais, uma construção em estilo de casa de fazenda no subúrbio rural de Kentwood [Louisiana], quando ela deveria estar fazendo a promoção de seu debut estrondoso, …Baby One More Time, o álbum pop que mais vendeu em 1999 até agora. Ficar em casa tem suas vantagens: enquanto a cantora fala, sua mãe, Lynne, professora de ginásio, está sentada no tapete da sala (com paredes forradas de madeira) dobrando a roupa lavada. Se não fosse pela pulseira de diamantes que Britney acabou de comprar para ela, você pensaria que a filha de Lynne não passava de uma universitária em férias, e não a sensação da música pop que nem terminou o ensino médio.

A canção que elevou Britney ao topo das paradas é uma declaração de intenções animadíssima, chamada “…Baby One More Time” – e essa elipse conta uma história. Os três pontinhos mascaram o refrão pegajoso – “Hit me Baby” – que algumas pessoas interpretaram como um convite ao masoquismo [“Hit” significa bater, em essência, mas também pode ter outras traduções, como dar as cartas de um jogo, por exemplo]. “Não estou dizendo para me baterem”, esclarece Spears. “Basicamente, estou pedindo um sinal. É engraçado as pessoas realmente acharem que o significado é esse.”

Talvez a confusão lingüística se derive do fato de a força criativa por trás de “…Baby One More Time” ser o maestro pop sueco Max Martin, também responsável pelos Backstreet Boys e por Robyn. Na posição de co-compositor e co-produtor do disco, Martin entregou cada letra para que fosse aprovada por Britney. “Pedi para mudar ‘Born to Make You Happy’. Era uma música muito sexual”, revela Spears, seguidora da fé batista. “Disse: ‘Talvez isso seja avançado demais para mim’. Por causa da coisa da imagem, não quero exagerar. Quero ter espaço para crescer.”

O ano é de 1960. Elvis foi seqüestrado pelo Tio Sam. Buddy Holly morreu e Little Richard encontrou o Senhor. No vácuo, surge uma força contra-revolucinária de adolescentes cheios de hormônios como Bobby Vee, Frankie Avalon, Fabian e Annette Funicelli, uma ex-integrante do Clube do Mickey. Com suas canções enlatadas e seus sorrisos de anúncio de creme dental, eles realmente conseguiram segurar a ameaça do rock and roll durante vários anos. E esta onda está acontecendo de novo.

Bem vindo à “New Age Teen”. Em um eco demográfico distante do baby-boom do período pós-guerra, a população adolescente nos Estados Unidos atingiu aquele tipo de massa crítica que faz a indústria cultural parar para prestar atenção. O poder de compra desses meninos e meninas está reformatando a cultura pop, enchendo a tela da TV de dramas teens e as salas de cinema com filminhos adolescentes. Também colocou uma nova batida animada nas rádios, onde a devoção vaporosa das boy bands venceu a raiva do rock de meados da década de 90.

‘N Sync, Backstreet Boys e 98º agora engasgam com o rastro de poeira deixado pelos saltos altíssimos da senhorita Britney Spears. Ela, que compartilha do mesmo empresário do ‘N Sync e da mesma gravadora dos Backstreet Boys, saiu gritando da linha de produção no começo do ano e se transformou na primeira artista-solo dessa era a colocar um disco e um single no topo das paradas simultaneamente, na primeira semana de lançamento do trabalho.

Mas, apesar de todos os textos em revistas de fãs que receberam a estréia explosiva de Spears no mercado, temos pouquíssimas informações sobre o que existe por trás de sua imagem – que aponta para vários estereótipos. Será que Britney é uma mistura de diva exausta com uma adolescente pau mandado maleável? Quem pode saber? Seja de propósito ou não, a rainha da “New Age Teen” norte-americana é obviamente uma anomalia moderna: a superstar anônima.

Britney Jean Spears é uma garota dourada, a apoteose que representa uma geração que traz novo fôlego a uma indústria estagnada. Carson Daly, VJ da MTV, conhece intimamente os hábitos dos adolescentes, não apenas por namorar a nova rainha do medo, Jennifer Love Hewitt, de 20 anos, mas também por causa do programa que apresenta toda tarde na emissora, Total Request Live, que conta com a participação ao vivo dos telespectadores por telefone e e-mail. “Os adolescentes não conseguem mais se concentrar”, desabafa Daly, 25 anos. “Só querem se sentir bem durante aqueles minutos, depois vão para a internet. Não querem levar nada muito a sério, querem seguir em frente – o ritmo é tudo. E Britney é o símbolo perfeito disso.”

Ser a mascote de uma geração acarreta certas responsabilidades. “Quero ser um bom exemplo para a garotada e não fazer coisas idiotas”, sonha Spears. “As crianças têm auto-estima muito baixa, sofrem a pressão dos colegas e acabam se envolvendo com as pessoas erradas. É aí começam acontecer coisas ruins, drogas e tudo o mais. Acho que se elas encontrarem alguma coisa para fazer com que fiquem felizes, vão se sentir seguras.” Britney, que venceu seu primeiro concurso de talentos aos seis anos, fala mais como se fosse uma mulher de meia-idade do que uma adolescente ao transmitir sua mensagem. Por acaso não acha que as pessoas de sua idade se debatem com questões de auto-estima devido à enxurrada de imagens na mídia que promovem sentimentos de inadequação? Spears pára um momento para refletir sobre a questão. “Quando as pessoas vêem coisas na TV que não podem fazer”, arrisca, “isso deveria incentivá-las a tomar uma atitude. É assim que eu encaro.”

Aquele primeiro “Ooh Baby-by ba-by” grave e sofrido que Spears sussurrou no ouvido do público trouxe consigo a forte sugestão de que esta não era uma garota como outra qualquer. É difícil equacionar aquelas sílabas lascivas com a colegial que jogava basquete e freqüentava a igreja, que pegava uma hora de estrada para fazer compras na Abercrombie and Finch mais próxima. Mas dá para ver aquela garota do interior nas fotografias de família e nas lembranças de Britney que forram as paredes do lar dos Spears. Aninhada entre elas, ao lado da foto de Britney com Ed McMahon em sua apresentação no programa de calouros “Star Search” em 1992, há uma foto da estrela com seu par da festa de formatura, um rapaz desengonçado de mocassim com calça social. É Reg, o único namorado com quem Britney teve um relacionamento de dois anos – que chegou ao fim quando as exigências da carreira que desabrochava começaram a pesar. “Não foi porque eu estava mudando”, ela admite. “Nós terminamos antes do meu sucesso acontecer. Senti que ele ficou inseguro. Eu não ia fazer nada, estava apaixonada de verdade. Acho que nunca mais vou amar alguém daquele jeito. Simplesmente acordei um dia e a coisa toda tinha desaparecido.” Spears desmente os boatos que a ligam a Lance Bass e a Justin Timberlake, do ‘NSYNC. “No exterior, dizem que é Nick Carter, dos Backstreet Boys”, ela observa, azeda. Neste momento, diz que prefere se concentrar no trabalho, não na vida amorosa e declara: “Não estou absolutamente a fim de ninguém”.

Apesar de sua posição como “Rainha dos Adolescentes”, Britney Spears não aprova totalmente a enxurrada de filmes a que seus amigos vão assistir em bando. “Filmes de festa”, classifica. Prefere os títulos que exigem o uso de enormes quantidades de lencinhos de papel, como Lado a Lado (1998) e Flores de Aço (1989). Ela lê a Revista Cosmopolitan e costumava acompanhar o seriado Dawson’s Creek, mas acha que hábitos regulares como assistir à televisão e ir à igreja são impossíveis de se manter em turnê. Mas Britney de fato reza à noite e vê TV de vez em quando. Assistiu a um episódio de South Park, que considerou “um sacrilégio”. Nesta noite, o letreiro inicial de Felicity aparece na televisão da família enquanto ela fala. O seriado é um tanto neurótico demais para o gosto da musa.

A casa dos Spears lembra um cenário de sitcom, com diversos vizinhos e parentes fazendo pontas sem avisar. A irmã de 8 anos de Britney, Jamie Lynn, arrasta uma vassoura até o meio da sala e brinda a todos com uma leitura animadíssima de “It’s a Hard-Knock Life” – a versão do musical Annie, não a revisão hip-hop de Jay-Z. Por cima da cabeça da menina, sobre o móvel da TV, há uma floresta de troféus. Muitos representam os feitos atléticos do irmão mais velho de Jamie Lynn, Bryan, agora com 21 anos, mas a maior parte foi conquistada por Britney em shows de talento e em eventos de ginástica (é a própria Britney que dá um mortal para trás no vídeo de “…Baby One More Time”). Enquanto a Sra. Spears serve porções de torta de chocolate feita por uma vizinha, Britney escuta a um dos discursos de Felicity em silêncio. “Ela não é de tirar o fôlego? Tão fofa!”, emociona-se. Ela conheceu a protagonista do seriado, Kerri Russel, quando as duas apresentavam o Clube do Mickey.

O fenômeno Britney Spears não é algo que tenha acontecido do dia para a noite. Mesmo antes de ela sentir o gostinho da vida dura dos shows de talentos infantis, já se preparava para a fama. Desde os 2 anos, tomava conta do banheiro da família e cantava com paixão, usando uma escova de cabelo no lugar do microfone. “Ficava no meu próprio mundo”, recorda. Sua estréia nos palcos aconteceu aos 5, cantando “What Child Is This” na formatura do jardim da infância. “Descobri o que queria fazer ainda bem pequena”, explica. “Ela vivia cantando – nunca ficava quieta”, lembra com carinho sua mãe, uma mulher pequena de 43 anos com enormes olhos castanhos. Bryan Spears, estudante de cinética, lembra-se da irmã dançando em frente à TV, acompanhando Madonna em “Like A Prayer”. “Era muito chato”, dispara.

Antes dos 10 anos, Spears já dominava o mercado dos shows de talento. “Aquelas competiçõezinhas realmente viraram um tédio”, arrisca. Aos 8 anos, ela impressionou os juízes em uma audição aberta para a reedição de O Clube do Mickey no Disney Channel, mas foi considerada nova demais para o programa. Fez propagandas de TV e uma peça off-Broadway, Ruthless, ao freqüentar os andares da Escola de Artes Performáticas de Nova York durante três verões. Então, finalmente, conquistou um lugar no Clube do Mickey durante duas temporadas em Orlando, onde ficou amiga de Russel, JC Chasez e de Justin Timberlake.

Diferentemente do que acontece com a maior parte dos astros mirins, foi Britney que obrigou os pais a fazer sua inscrição na audição do Clube do Mickey. Jeff Fenster, vice-presidente de relações artísticas da Jive, que assinou com Spears, ficou bastante surpreso quando viu a dinâmica da família no trabalho. “Os pais dela não a forçavam a nada”, conta. Em outras palavras, Britney é sua própria mãe-de-palco.

Quando o programa foi cancelado, Spears devolveu suas orelhas de rato e voltou para Kentwood, onde se matriculou na escola particular Park Lane, em McComb, no estado do Mississippi, uma cidade próxima. As regras de Park Lane lhe pareceram sufocantes e seus colegas tinham um ar um tanto provinciano. “Você lembra da cena de abertura de As Patricinhas de Beverly Hills (1995)? Era assim”, conta Spears, que fazia amizade com líderes de torcida e nerds da mesma maneira.

Mas Britney tem boa fama em Kentwood, uma comunidade de 2600 habitantes em que é possível sentir-se como um satanista apenas por morar no CEP errado. Uma escola de ensino médio local tem uma placa na frente: “Dirija com Cuidado, Viva com Orações”. “Praticamente todo mundo aqui gosta dela”, acredita Lucas Thornton, 17 anos, aluno da Kentwood High. “Quando fui ao Mardi Gras [Carnaval em Nova Orleans], estava com uma jaqueta de Kentwood, e muita gente veio perguntar se eu a conhecia.”

A passagem de Spears para longe de Kentwood chegou quando Larry Rudolph, advogado da indústria de entretenimento, conseguiu para ela – no velho estilo do showbiz – uma audição com Jeff Fenster. “É muito raro ouvir alguém daquela idade conseguir unir conteúdo emocional e apelo comercial”, diz Fenster, lembrando de suas primeiras impressões. Mas não era só isso. “Para qualquer artista, a motivação, o ‘olho do tigre’, é extremamente importante”, ele continua. “E Britney tinha isso. Trata-se obviamente de uma pessoa com muita motivação desde pequena.”

No segundo em que a Jive ouviu as primeiras sessões de Britney Spears com o produtor que lhe foi designado, Eric Foster White, seu destino foi selado. O contrato provisório da cantora foi promovido a efetivo e a Jive deu início a um tipo de ataque promocional intensivo comumente associado a novos produtos da Disney ou da Coca-Cola. Primeiro apareceu o site, o e-mail e o número de ligação gratuita de Britney, anunciados em várias centenas de milhares de cartões-postais. No verão de 1998, cerca de seis meses antes do lançamento do disco, Spears apresentou-se em 26 shopping centers por todo o país, fazendo suas coreografias com dois dançarinos e várias mudanças de figurino. As apresentações contaram com o apoio de revistas adolescentes de grande circulação – Spears já dava autógrafos antes mesmo de tocar no rádio. O trem promocional de Britney Spears carregou ainda uma campanha para a Sunglass Hut, uma sessão de fotos para a Tommy Hilfiger e o show de abertura da turnê do ‘N Sync.

Por mais impressionante que possa ser a iniciativa promocional da Jive, a empresa credita boa parte do sucesso ao talento da artista. “Nunca vi uma pessoa tão concentrada”, elogia Kim Kaiman, diretora de marketing da gravadora. Na turnê de shoppings, por exemplo, Kaiman ficou surpreendida de ver a maneira como a menina abraçava com alegria obrigações promocionais apavorantes em lojas e estações de rádio. “Uma das razões por que o rádio se apaixonou por ela é seu jeito tão sulista, doce e gracioso”, avalia Kaiman. “E isso realmente é algo que aquece o coração de um programador.”

De acordo com Spears, o álbum que foi subseqüentemente entregue a esses programadores de coração terno não era exatamente o que ela tinha planejado. Sua idéia vaga era que cantaria “músicas ao estilo de Sheryl Crow, mas mais jovem; mais adulto-contemporâneo”, relembra. No entanto, ela está feliz por ter aceito a escolha espalhafatosa de produtores e compositores da Jive. “Fazia mais sentido embarcar no pop porque eu sei dançar – tem mais a ver comigo.”

Quando chegou a hora de fazer o clipe de …Baby One More Time, a cantora teve que mostrar que sua simpatia sulista tinha limites. A Jive tinha contratado o diretor de vídeo Joseph Khan, cujo conceito chegou ao estágio do storyboard antes que Spears erguesse a voz. “A idéia era bizarra, uma animação com cara de Power Rangers”, explica. “Eu fui direta: ‘Isto não está certo. Se você querem que eu atinja crianças de 4 anos, tudo bem, mas se querem que eu fale com as pessoas da minha idade…’. Então, tive a idéia de alunos entediados, usando uniformes de escola católica. E completei: ‘Por que não usamos meias compridas e amarramos a camisa para colocar um pouco de atitude?’. Assim, não ia ficar chato nem cafona.” A garota de 17 anos ganhou o dia, e o resto já se transformou em sucesso.

Britney Spears está na cozinha, segurando um saco de gelo no joelho enquanto toma o café da manhã. O cabelo está solto, mas não despenteado – foi bem arrumado com a ajuda de um baby-lyss. A maquiagem e as jóias estão no lugar. O joelho parece um pouco melhor, mas ela está ficando cada vez mais impaciente com os médicos. Aparentemente, eles não compreendem que Britney tem um vídeo novo para gravar. A queridinha da América sai mancando da cozinha e segue por um corredor forrado de fotos até seu antigo quarto. “É um quarto de menininha”, avisa. Para dizer o mínimo. O espaço diminuto, assim como o resto da casa, é abarrotado de estampas florais e babados; almofadões cobrem cada centímetro quadrado que não está tomado por uma coleção impressionante de bonecas pálidas. “Sabia que isto iria acontecer!”, ela afirma, levemente exasperada. A irmãzinha dela tentou fazer dreadlocks nas bonecas. Para Spears, aqueles brinquedos – assim como a proibição rígida da mãe em relação a telefonemas interurbanos – servem para lembrá-la de uma vida passada que ela não tem intenção de retroceder.

O próximo passo é a viagem de hoje até Nova Orleans, onde a cantora será atendida por um fisioterapeuta do time de futebol-americano Saints. Enquanto estiver por lá, pode ser que a má motorista confessa faça um test-drive com um novo modelo de BMW, igual ao que aparecerá em seu próximo vídeo, para a recatada “Sometimes”. A estrada para o céu de Spears não segue seu trajeto sem algumas lombadas. Primeiro, foi a ameaça de processo de um homem que alegava ser seu ex-empresário (o caso foi resolvido fora do tribunal). Um perigo mais real vem dos fãs que descobriram seu endereço. Sozinha em casa, certa noite, teve que se esconder de um admirador que espiava através da janela e sua mãe já pegou outro garoto que jogava pedrinhas no vidro para chamar a atenção.

Lynne Spears entra pelas portas envidraçadas da cozinha e abraça a filha. A dupla fala sobre a espinha que apareceu no nariz de Britney. Ainda assim, a adolescente implora por um queijo-quente. “Você chega a um hotel e come um queijo-quente, mas nunca é igual ao da sua mãe”, derrete-se Spears enquanto engole o lanche cheio de manteiga. Entre mordidas, come ainda batatinhas com molho de queijo apimentado.

O irmão Bryan aparece, carregando uma sacola gigantesca de lagostins cozidos. Ele e a noiva, Blaze, prometeram levar Britney a um bar de Nova Orleans que tem uma cachoeira interna [Muito antes de se tornar conhecida do público, ela costumava acompanhar o irmão e os amigos dele a passeios regados a álcool, com sua identidade falsa em punho]. “E eu? Não posso ir junto?”, pergunta Lynne Spears, fazendo um bico para fingir decepção. “Claro que pode!”, respondem os filhos. “Eu sei beber”, solta Britney. “Eu e a minha mãe tomamos uma taça de vinho juntas… e tudo bem. Os jovens vão beber de qualquer jeito, e quanto mais você diz ‘não beba’, mais eles vão querer.” Ela confessa que nunca ficou bêbada. “Porque, antes disso acontecer, fico lá sentada, quietinha. Detesto perder o controle.”

Pessoas controladoras com freqüência se encaixam bem no papel de popstar, e nesse departamento, Britney Spears está bem servida. De todo modo, o ano próspero de estréia está praticamente garantido por …Baby One More Time – carregado de sucessos em diversos gêneros do pop. As faixas de Max Martin deveriam vir com uma injeção de insulina grátis, e as canções de Eric Foster White não são para quem tem intolerância à lactose (“E-mail My Heart”?), mas Spears, com toda a certeza, espreme o material até a última gota. Ouvir uma canção de Britney pela primeira vez é estranhamente reconfortante, como encontrar um Starbucks em uma cidade desconhecida. A gravadora vai ficar decepcionada se as vendas nos Estados Unidos não ultrapassarem os quatro milhões. Mas, para novatos adolescentes como ela, é o segundo ano que separa os Boyz II Men dos New Kids. Como Carson Daly diz, “a lealdade entre os adolescentes é o grande perigo. Com a mesma rapidez que chegam, vão embora. Mas Britney deve ganhar dinheiro suficiente para não precisar se preocupar com o que os seus fãs vão fazer ou não em um futuro próximo”.

Pode parecer que existe uma infinidade de enredos para a sequência da vida de Spears. Ela pode achar um emprego rentável em musicais teatrais, como aconteceu com Debbie Gibson, ou até mesmo censurar o pop como um todo e reencarnar como uma Alanis Morissette vingativa. Do ponto de vista de Jeff Fenster, Spears já superou esses arquétipos. “Acho que ela tem a oportunidade de se transformar em alguém que combina os melhores elementos de Madonna em termos de versatilidade com as cantoras sérias em que se inspira: as Whitney Houstons e as Celine Dions da vida.” Spears gosta do modelo de Madonna, elogia a cantora dizendo que é uma “mulher de negócios inteligente” e exprime seu desejo de delinear a própria carreira. Até agora, assinou a co-autoria de um lado B, e com freqüência deixa fragmentos de canções em sua secretária eletrônica. Resume sua própria ambição com uma simplicidade fria: “Quero fazer sucesso no mundo todo”.

Seja lá no que Britney Spears venha a se transformar, hoje ela é o mais novo modelo de um produto clássico: a popstar sem neuroses que desempenha suas tarefas com desenvoltura teatral e charme de porta-voz. Como a própria Spears adianta: “A intenção não é ser profunda; mas isso não quer dizer que eu não tenha me esforçado muito”.

Mas, bom, se daqui a uns dez anos você estiver em um bar e “….Baby One More Time” começar a tocar na jukebox, provavelmente vai sorrir. E começar a balançar o corpo. E parece que o pop efêmero vai continuar vivo – a população adolescente dos Estados Unidos mostra sinais de crescimento: na próxima década, deve passar dos 29 para 36 milhões. Em outras palavras, não adianta resistir. Os adolescentes é que dão a direção da nossa cultura – e não vão devolver as chaves assim tão cedo.

 

Matéria: Steven Daly
Tradução: Ana Ban

Matéria publicada originalmente na edição de 15 de Abril de 1999 da Rolling Stone (EUA).

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