ESPECIAL: O AMOR INCONDICIONAL AO ÍDOLO E A RELAÇÃO PERIGOSA COM A INTERNET

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Para homens gays,”stanning” – ser super fã de – popstars femininas pode ser uma parte valiosa de sua identidade. Mas, muitas vezes, esse fenômeno cai na misoginia e na humilhação do corpo.

Britney Spears se apresenta na parada gay de Brighton, em 2017

Durante o show recorde de Britney Spears no Brighton Pride deste ano, havia um fã vestindo uma camiseta com uma foto do colapso de Britney: o incidente de 2007 quando, com a cabeça raspada, ela atacou o carro de um fotógrafo com um guarda-chuva. Talvez ele achasse que estava sendo engraçado. Mas não.

“Brightney Pride”, como foi carinhosamente apelidado, foi um dos maiores eventos do calendário gay – tão grande que quatro mil foliões foram abandonados quando o sistema de transporte público da cidade falhou sob a pressão. Certamente, apenas os stans mais dedicados de Britney – uma combinação de “fan” e “stalker”(“perseguidor”, em inglês), termo oriundo do sucesso de Eminem sobre um seguidor enlouquecido – teriam enfrentado essas condições para vislumbrar o ídolo. Então, por que tanta provocação?

Parada Gay de Brighton, em 2017

A cultura gay masculina sempre se uniu em torno de popstars femininas, de Judy Garland a Lady Gaga e Ariana Grande. Acadêmicos e críticos se intrigam a respeito da origem dessa conexão, com teorias geralmente mal colocadas, que vão do estranho ao edipiano. No entanto, os homens gays e as mulheres que eles endeusam costumam se deliciar com o afeto mútuo. Neste ano, Spears foi homenageada com um prêmio da Aliança contra a Difamação Gay e Lésbica dos EUA (GLAAD) por promover a igualdade. Ela respondeu dizendo que a comunidade gay mostrou seu “amor incondicional”.

Mas “incondicional” é muitas vezes exatamente o que esse amor não é. Uma análise bem superficial revela uma verdadeira reciprocidade e carinho, mas também uma misoginia insensível.

Uma teoria da conexão gay fã-diva é a da opressão compartilhada – homens e mulheres gays são colocados sob a roda do hetero-patriarcado. Talvez nesse modelo, a camiseta de Spears poderia ser lida como uma demonstração de solidariedade, um reconhecimento de sua dor e nossa compreensão? Mas não havia nenhuma esperteza na forma como outro fã gay editou a foto do Meet and Greet com um guarda-chuva e a disponibilizou na Internet. Tais ações têm um quê distinto de escárnio, o ar de uma piada em que o alvo não está ciente das consequências.

Dr. Michael Bronski, professor da Universidade de Harvard e autor de livros sobre a história e a cultura gays, afirma: “Há uma longa história de cultura de fãs gays se conectando a mulheres famosas e depois atacando-as. As rainhas iam a um concerto de Judy Garland e depois gritavam quando ela estava bêbada demais para terminá-lo. As mulheres mudaram – não são mais Marlene Dietrich e Judy Garland. Mas a dinâmica perdura na cultura ocidental”.

A dinâmica de amor e ódio da cultura stan gay que Bronski descreve agora é amplamente mediada pelas mídias sociais. As provocações em boates esfumaçadas foram substituídas por “memes de ódio”, quando os stans circulam imagens pouco lisonjeiras editadas ou exemplos do comportamento menos favorável de uma artista, enquanto os aplausos se transformaram em um léxico de superlativos e insignificâncias que podem parecer impenetráveis ​​aos não iniciados: nós praticamos atos de stans com nossas popstars favoritas, elas são “icônicas”, “rainhas da po**a toda”. “Ela superou” é uma expressão utilizada para descrever os sucessos comerciais e um senso geral de superioridade. Alguém que não atenda a esses padrões? “Gorda”, “flop”,”desastre”.

Essa comunidade online depende de uma densa matriz de referências e neologismos informados por tudo, da cultura drag aos reality shows. Para muitos homens gays, a cultura pop gay stan é a destilação de tudo o que é significativo na vida. Muitos jovens consideram Lady Gaga a única luz em um mundo onde as próprias peculiaridades os faz se sentirem marginalizados.

Britney Spears se apresenta na parada gay de Brighton, em 2017

É difícil superestimar a importância da relação fã-diva para homens gays. O desconcertante é por que essa devoção pseudo-religiosa sempre foi atada com despeito. No início deste ano, a cantora pop Hayley Kiyoko criticou Rita Ora, Cardi B, Bebe Rexha eCharli XCX pelo single Girls, uma canção sobre bissexualidade que ela, como lésbica, considerava apropriativa. Em poucas horas, o Twitter havia descoberto e circulou tweets incriminadores de Kiyoko de nove anos atrás (quando ela tinha 18 anos) em uma tentativa de “cancelá-la” – excluindo uma pessoa inteiramente do discurso online, exceto como alvo de ódio – por ousar a criticar uma música de que eles gostaram. Em suma, tal fato reverbera a cultura gay stan: as cantoras devem obedecer às regras ou sofrerão as consequências.

Muito tem sido escrito sobre a “arte gay do fracasso” – como homens e mulheres gays são sempre vistos como fracassos pela sociedade heteronormativa e, portanto, devem ser bem-sucedidos em sua própria não-conformidade. Talvez, neste contexto, não seja surpreendente que os gays pareçam se deleitar com os retrocessos e deficiências percebidos em seus ídolos. Porém, a simpatia que alguém poderia esperar para acompanhar essa identificação parece ausente. O comportamento mais parece um tapa na cara.

No fim de agosto deste ano, a cantora Marina Diamandis – um ídolo da comunidade gay – twittou para um fã que faz parte da comunidade gay stan depois que ele enviou um tweet abusivo. “Existe uma cultura de pessoas que humilham outras na Internet que me desagrada muito. Estou afastada das redes sociais nos últimos 3 meses porque sofro de depressão e os comentários negativos realmente me afetam”, postou Diamandis.

“Marina, meu Deus, por favor, não interprete mal. Eu sou um stan e isso era pra ter sido uma piada inofensiva”, protestou o fã. Como a própria Diamandis apontou, a cultura stan falha ao conceder humanidade aos ícones de sua adoração.

Britney Spears se apresentando no Video Music Awards, em 2007

Mesmo quando os gays não estão expressando ódio contra essas mulheres, os elogios podem revelar diferentes formas de misoginia. Uma tendência recente é elogiar as mulheres chamando-as de “magras” ou “lendas magras” – uma retórica que decolou com um meme de Mariah Carey. Embora seja usado figurativamente para implicar perfeição, a expressão revela que uma palavra historicamente usada para policiar a fisicalidade feminina evoluiu naturalmente no vernáculo masculino gay. O que mais seria senão uma forma de chauvinismo?

De fato, “magreza” é apenas um dos muitos traços hiper-femininos que os gays parecem valorizar. É importante lembrar que a cultura gay masculina existe na confluência de muitas correntes sociais, incluindo a misoginia masculina mais ampla e a homofobia social. É fácil atribuir a culpa aos gays que estão apenas tentando encontrar uma forma de escapismo e pertencimento.

Este é um qualificador importante.”Stanning” em si não é um território exclusivamente homossexual – Eminem, o criador de “Stan”, dificilmente será um ícone gay. Dr. Lynn Zubernis é professor da West Chester University na Pensilvânia e especialista em fandoms. Ela afirma que os comportamentos de bullying encontrados na cultura gay são comuns a todos os fandoms.

“Como o objeto da adoração de um fã se torna muito importante para a sua felicidade, quando há algum tipo de decepção, ela traz uma resposta forte – e às vezes problemática. Essa é a dinâmica por trás das ‘mudanças de humor’ que você vê no fandom, em que os fãs amam alguma coisa um dia e a rejeitam no dia seguinte. Não é sobre misoginia, vai além de gênero, sexualidade, tipo de fandom, até mesmo tempo. Os fãs de esportes, por vezes, rejeitam os jogadores astros da mesma forma. Não acho que seja uma coisa homem-mulher ou gays-héteros. Acho que é algo humano.”

No entanto, nem todos os fandoms operam com a mesma dinâmica de poder. Na cultura gay, o gênero não apenas ocasionalmente se cruza com o ódio online – ele define o cenário. O abuso e a objetificação dessas mulheres são claramente relacionados ao gênero – qualquer homem, gay ou hetero, twittando “gorda!” para uma mulher é uma misoginia indiscutível.

Os homens gays e as mulheres do pop se beneficiam da mutualidade de seu “relacionamento especial”. É improvável que Britney tenha notado aquela camiseta desagradável com todo o amor envolvido naquele dia. Entretanto, com a misoginia masculina gay sendo discutida mais amplamente do que nunca, em termos de nossa vida noturna, espaços gays e movimentos sociais, qual é o sentido desta relação tão insensível? Que tipo de permissividade estamos ajudando a cultivar em torno da misoginia? No fundo, sabemos realmente o que significa amar essas mulheres?


https://twitter.com/britneyspears/status/1025878910372851718

Título original: ‘They just wanted to silence her’: the dark side of gay stan culture
Tradução: Leonardo Magalhães
Disponível no site oficial do jornal
The Guardian

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